Pensar a escola como espaço de (trans)formação através das artes africanas: diálogos itinerantes


Ao nos propormos falar sobre formação estética através das artes africanas, uma das primeiras questões que devemos levar em consideração consiste em questionar o que podemos entender como formação estética. De acordo com Lago e Vani (2015), essa é uma questão diretamente relacionada com a possibilidade de diálogos transformadores induzidos pelo encontro com o outro, num jogo intersubjetivo. Ou seja, pensar em uma formação estética não implica apenas em atividades externas, como organizar visitas a museus e galerias, ou mesmo no aprendizado de técnicas em arte ou interpretação de obras. Tudo isso tem a sua importância, mas quando nos referimos a uma formação significativa, estamos falando sobretudo de experiência, entendendo ser esse um conceito que diz respeito a tudo aquilo que vivenciamos e que modifica nosso estar no mundo. Enquanto experiência, uma formação estética através das artes africanas, portanto, tem como objetivo promover encontros que possam ampliar nossa visão sobre arte africana, nos levando a enxergar a pessoa negra através da história não apenas como mão de obra num contexto escravagista, mas como produtora de cultura.


Outra questão com a qual precisamos estar atentos diz respeito ao fato de que não apenas a formação estética através das artes africanas precisa ser pensada, mas também a maneira como o ensino de artes vem se constituindo historicamente no contexto escolar. A esse respeito, vale destacar que nossas primeiras experiências com o ensino de artes foi, sobretudo, baseada na importação de estilos artísticos europeus, uma vez que, de acordo com Lopez (2001), as ideias e criações dos povos nativos eram consideradas como inferiores, expressão de uma inferioridade étnica, tendência que se manteve até o Modernismo. Podemos considerar que essa linha de raciocínio está fundamentada naquilo que Boaventura de Sousa Santos considera como um pensamento abissal. Para o autor, esse tipo de pensamento é característico do mundo ocidental moderno. Ao criar dicotomias, o pensamento abissal estabelece divisões como forma de legitimar uma cultura dominante por meio do silenciamento de outras realidades culturais. Em grande parte nossa escola é herdeira desse pensamento ao efetivar escolhas em seu currículo que reforçam narrativas que privilegiam identidades hegemônicas, tratando de forma tangencial ou mesmo negligenciando as questões que dizem respeito às identidades não-hegemônicas, conforme apontado por Tomaz Tadeu da Silva (2005). Não podemos negar, evidentemente, avanços ocorridos, como a implementação da lei 10.639/03, que institui a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afrobrasileira no ensino básico de escolas públicas e privadas. Contudo, sua implementação ainda enfrenta dificuldades, sendo os principais argumentos que justificam essa dificuldade a falta de materiais e formação adequada, bem como ausência de diretrizes no Projeto Político Pedagógico das escolas.


Pensando nisso, nossa discussão visa contribuir com algumas reflexões iniciais acerca do valor da produção artística africana, em particular a produção escultórica desenvolvida na República democrática do Congo, tendo em vista um diálogo que nos possibilite uma aproximação do sentido de uma formação estética através das artes africanas.


Vale destacar que boa parte de nossas dificuldades em torno de um entendimento acerca das artes africanas está relacionado ao modo como historicamente foram abordadas em museus e galerias, geralmente tratadas como objetos de contemplação, desse modo estabelecendo um distanciamento entre o observador e a obra. Nas culturas tradicionais africanas, e em particular na cultura tradicional banto, não é possível fazer esse recorte, uma vez que não existe nada semelhante a espaços destinados exclusivamente para a contemplação de obras artísticas. Para os banto, a arte está profundamente relacionada com a vida, sendo que para Dewey (2010) essa relação vital é interrompida na medida em que a arte passa a ocupar museus e galerias. A esse respeito, é importante ressaltar que durante o processo de constituição dos acervos de arte africana nos museus da europa, nenhuma preocupação havia com o significado e função de tais obras, dando-se maior destaque a seu caráter exótico. Vale destacar que que o valor artístico de tais produções passa a ser reconhecido, principalmente, a partir do século XX, sendo que, de modo geral, o tema das artes africanas ainda era tratado em manuais de arte como expressão de culturas primitivas. Muitas vezes entendida como uma produção genérica, pouca importância foi dada à questão da autoria de tais obras, uma vez que se acreditava que os mesmos fossem apenas resultado de uma influência cultural. Sem negar tal influência, podemos considerar que a pessoa do artista em território Africano anteriormente aos movimentos colonialistas não era ignorada, sendo que alguns trabalhos atualmente podem ser atribuídos a mestres ou oficinas específicos, como o Mestre de Buli ou o Mestre do Sorriso Arcaico. De acordo com Altuna (1985), a questão das potencialidades individuais era estimulada na medida em que não representasse uma ruptura com a coletividade. Nesse sentido, a pessoa banto se tornaria mais humana na medida de sua relação com a comunidade.


Uma importante questão que precisamos levar em conta com relação a um entendimento sobre as artes africanas, portanto, é a sua diversidade. Nesse sentido, enxergar a produção artística africana apenas enquanto uma expressão de religiosidade consiste em uma atitude que reflete bastante nossa formação colonialista quando não levamos em consideração a complexidade de uma cultura. A esse respeito, Ola Balogun (1977) considera que mesmo nas manifestações artísticas de caráter religioso, como nos rituais com máscaras, é possível identificarmos momentos distintos, onde o objetivo consistiria num entretenimento para os participantes.


No caso da cultura tradicional banto, a noção de união vital, conforme apontado por Altuna (1985) é importante para que possamos compreender não apenas as questões relacionadas com a arte, mas também com a política, a economia… Enfim, a sociedade de um modo geral. Essa união se expressa, sobretudo, através de relações de solidariedade entre os membros da comunidade banto, onde a questão da família se estende para além de uma concepção nuclear, sendo uma forma de passar adiante o dom da vida que foi dado pela divindade. existe uma constante preocupação em manter o equilíbrio social e conformidade com a harmonia universal, daí o entendimento de que o direito à terra não é uma propriedade exclusiva, conforme entendemos na sociedade capitalista, mas é algo a ser compartilhado em conformidade com as necessidades. A terra, na verdade, pertence aos bakulu, ou ancestrais.


A relação com a terra e, por conseguinte, com a ancestralidade, está bastante presente na produção escultórica do povo Hemba, onde a figura do ancestral geralmente é representada em traços elementares, com as mãos posicionadas sobre uma barriga proeminente, indicativo de fertilidade e da importância da descendência. O propósito da imagem do ancestral não consiste na reprodução fidedigna do mesmo, mas de tudo aquilo que ele representa, sendo por isso facilmente reconhecido dentro de seu contexto comunitário.

Concluindo

Vemos assim que a questão da interpretação é fundamental quando lidamos com as artes africanas, o que nos deve levar a uma revisão crítica de nossas referências, considerando-se a estética enquanto um elemento de resistência frente às inúmeras distorções relativas à produção artística africana. Daí nossa discussão haver trazido, ainda que de maneira breve, alguns elementos da cultura tradicional de matriz Banto, tendo igualmente em vista a necessidade da construção de narrativas plurais no contexto escolar que, de modo geral, ainda está carregado de experiências que transmitem uma noção de que a história e a cultura ocidentais foram mais importantes em nosso desenvolvimento enquanto humanidade.
Podemos ainda considerar que se a produção artística africana se desenvolveu de tal modo a estabelecer relações diretas com a vida, uma formação estética através das artes africanas vem a contribuir de modo a pensarmos o currículo escolar de modo contextualizado, ressaltando-se a experiência comunitária como um lócus de aprendizagens significativas, bem como no sentido de pensarmos a estrutura física da escola, uma vez que a mesma, em geral, tem se mostrado inadequada a uma aprendizagem que leve em consideração nossa corporeidade. de acordo com Machado e Oliveira (2016), essa é uma questão fundamental, se quisermos compreender nossa cultura afroancestal, uma vez que o corpo, sendo produtor de sentidos, assume caráter textual, por meio do qual podemos ler valores, conhecer histórias – através do gesto, do caminhar, do dançar etc. Essa é uma postura fundamental para superarmos a dimensão dualista que levou a considerar as práticas relativas ao corpo no contexto Banto como inferiores, geralmente mal entendidas como sinônimo de promiscuidade.
Para concluir, consideramos ser necessário colocarmos em questão a prática do distanciamento do objeto de conhecimento enquanto uma abordagem científica, e que no lugar do distanciamento, possamos criar intimidade com o que deve ser conhecido, sempre levando em consideração a importância do diálogo não enquanto mera formalidade, mas como elemento fundamental de nossa prática, onde falamos a partir de uma experiência vivida, não mais como estrangeiros. Evidentemente, essa não é uma questão apenas de responsabilidade individual, mas implica em um projeto coletivo, onde não apenas a escola, mas também o poder público e as universidades possam trabalhar no sentido de mudar suas estruturas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTUNA, P. Raul Ruiz de Asúa. Cultura tradicional banto.1ª ed. Luanda: Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.

LAGO, Clenio; VANI, Andressa Cristina. Experiência estética e formação: um desafio
contemporâneo à educação. Impulso: Revista de Ciências Sociais e Humanas UNIMEP,
Piracicaba, v. 25, n. 63, 2015. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistasunimep/index.php/impulso/article/view/2140/1584. Acesso em 14/ 06/2020.
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MACHADO, Adilbênia; OLIVEIRA, Eduardo. Corpo e movimento: ancestralidade africana e encantamento – estética do bem-viver. In: VI Memórias de Baobá. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará. 2016, p. 13-21.

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