Alfabetização e letramento: consequências individuais e coletivas

De maneira bastante sucinta, podemos dizer que alfabetizar implica em dar a entender a palavra; ou, melhor dizendo: os mecanismos de funcionamento de uma língua. Podemos destacar ainda que se trata de algo que, geralmente, aprendemos na escola, embora relatos de pessoas que dizem ter aprendido a ler sozinhas em casa não sejam incomuns. Durante muito tempo (ao menos até às duas últimas décadas do século XX) a ideia de alfabetização como um exercício de codificação e decodificação da palavra esteve muito presente nas práticas escolares e nos materiais didáticos, sendo um exemplo emblemático disso as cartilhas de ABC, que apresentavam um modelo genérico de alfabetização pouco relacionada com a realidade dos educandos. As palavras que então emergiam do quadro negro e dessas cartilhas eram impostas pelo professor, sendo que muitas vezes nem mesmo ele, nem os alunos chegavam a refletir sobre elas, uma vez que já vinham prontas no material didático, oriundo de políticas educacionais excludentes que deixavam de considerar outras possibilidades de leitura, ou as considerava como um desvio. Daí que muitas dificuldades apresentadas pelos alunos eram consideradas como incapacidades pessoais.

Uma das grandes contribuições para se pensar de modo diferenciado a questão da alfabetização, principalmente no contexto brasileiro, podemos dizer que ganhou um impulso significativo a p humartir das reflexões de Paulo Freire e de seu trabalho com a alfabetização de jovens e adultos. Para este educador a questão do aprendizado, e em particular o aprendizado da leitura, não se restringe ao ensino escolar. Estamos aprendendo a ler o mundo desde o momento em que nascemos, através de nossas relações com as coisas. A criança, portanto, mesmo ainda não sendo escolarizada, interage em seu meio com diferentes maneiras de ver e de representar o mundo, tomando como referência não apenas os seus pares mas também as pessoas mais velhas que estão constantemente lidando com diferentes tipos de linguagem, inclusive as verbais. A ênfase da escola no aspecto formal da língua escrita, ainda hoje recorrente em tantas práticas, muitas vezes apenas contribui para a exclusão das classes que, devido às suas condições materiais, não podem ter acesso a bens culturais que poderiam auxiliar sua desenvoltura acadêmica.

Uma das consequências mais diretas desse modelo de ensino tem sido o grande número de repetência e evasão na escola pública por parte dos filhos da classe trabalhadora, principalmente nos anos iniciais do ensino fundamental, onde não raro podemos encontrar crianças no 5º ano que ainda não sabem ler e escrever, ou dominam essas técnicas muito precariamente. Vale destacar que muito das políticas educacionais elaboradas na tentativa de lidar com essa questão apenas tem tido efeito reparador ou protelador desses problemas, como no caso da aprovação automática nós três primeiros anos, cuja consequência evidente foi a que já podemos observar no caso dos alunos de 5º ano, mas que não se reduz apenas a isso, podendo ainda ser identificado um contingente significativo de pessoas que enfrentam dificuldades no uso formal da escrita durante os anos posteriores de sua escolarização, atingindo também o ensino superior.

Foi durante as últimas décadas do século passado que pudemos identificar um maior número de pesquisas relacionadas à questão da aprendizagem da língua escrita, estando envolvidos nesses estudos pesquisadores de diversas áreas, como Psicologia, História, Linguística, Sociologia etc. Também foi a partir dessa época que pudemos presenciar maior discussão a respeito do sentido do letramento, uma vez que o modelo tradicional de alfabetização havia se mostrado insuficiente enquanto formação de um sujeito leitor competente, capaz não só de reproduzir textos, mas também de produzi-los e aplicá-los a diferentes contextos, de acordo com suas necessidades.

Uma das consequências da alfabetização na perspectiva do letramento diz respeito fundamentalmente ao fato de a pessoa poder se perceber enquanto sujeito produtor de sentidos, sendo capaz de falar por si mesmo e de refletir de maneira ampla e aprofundada sobre as tantas questões que dizem respeito não só a si mesmo, mas também ao mundo. Ao contrário da perspectiva tradicional de alfabetização, um sujeito letrado não é apenas um bom conhecedor das letras, mas um conhecedor do mundo, que pensa não apenas em si mesmo mas também no outro, no lugar que ocupamos em sociedade e no nosso papel enquanto sujeitos políticos.

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